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Saturday, October 3, 2020

Sobre Super-Poderes

E porque eu sorria, me sorriu também.

-Por que sorris? - Indagou.


-Se o simples olhar pode mudar o comportamento dos fótons. Imagine o que não pode o sorrir. 


Vanessa Aquino





Thursday, August 27, 2020

Seduções Solares






O sol vai alto
Não sei se bêbado ou esnobe. 
Promíscuo, às vezes se enrosca com uma nuvem. 
Daí esfria e segue como quem se obstina em chegar. 
Não sabe, está estático, agarrado ao trono. 
– Não faz assim! – Me acarinha o rosto. 
Não gosta das suas verdades. 
Quem gosta?
Não conto, já que não quer ouvir,
Que se ele brilha não é porque quer
Brilha apenas por ser quem é. 
Não se enganem, brilhar e dar suporte à vida são ações distintas abrigadas em corpos celestes diferentes. 
– Falas de mim? – Me acaricia o rosto agora com mais força. E toca tudo o que as sombras deixam.
– Quero tocar à todos. 
– Tocas demais. – Explico. 
Ele se esconde atrás das nuvens. 
– Nos seus braços vamos fenecer sufocados um dia...
– Não sou eu quem dita as regras. – Diz sem se desfazer da nuvem que lhe afaga a cara. 
– Eu sei. 
Olha-me com um olho cintilante mas sentido, como quem também conhece seu fim. 
– Por que me chamastes?
– Tenho frio. – disse – Mas quero ir ao rio, me banhar. 
– E queres que eu toque tudo o que posso no vale? – Pergunta com ironia. 
Eu dou de ombros e nego com a cabeça. 
– Não sou eu quem dá ordens ao majestoso astro. Só queria convidar e saber se tens planos. 
Sabendo que tem vaidade adiciono:
– Esse rio é tão limpo, forma um lindo espelho do céu. 
Olhando para o alto ele já vai se enroscando com outra nuvem... pisca para mim apontando o rio. 
Impossível evitar seus encantos, nem quero. 
Gosto do charme com que se move e hipnotizada desço a montanha, câmera em punho e o entusiasmo de observá-lo onde sua beleza se duplica, refletida nas águas frias do Missisquoi.


Vanessa Aquino

Julho 2020 - Missisiquoi

Fotografia: Vanessa Aquino 

Thursday, June 25, 2020

Da Vida



    Como os dias passassem sem sentido e preguiçosos, na vila pessoas morriam e outras pessoas nasciam para lhes repor o lugar deixado vazio nas casas, nas lojinhas, no porto, nas ruas, na vida. 

Não era uma vila pretensiosa, não desejava ser melhor, apenas seguia o curso que a vida impõe. “A vida nos coloca na estrada, então temos que caminhar, depois ela nos joga da ribanceira, não é preciso caminhar mais.” Estava escrito na pedra na entrada da ponte que leva à cidadezinha, como se quisesse logo avisar que é inútil tentar chegar à algum lugar, tudo é estrada. 


Vanessa de Aquino

Sem data - Escrito entre 2014 e 2019

Monday, June 29, 2009

The Beginning - O início

Contos de Passarinho

Naquela manhã de Abril, avistava-se, construído na beira de um telhado, feito cuidadosamente de capim e gravetos, um pequeno ninho . A delicada estrutura, ainda que possuindo muitas arestas, escondia dentro de si um terrível tesouro.
Pintado de marrom escuro em claro fundo, o pequeno ovo deitado ali no ninho não parecia mudar muito sua aparência no decorrer dos dias, mas lá dentro, protegido atrás da fina casca, escondia-se um milagre, um segredo, uma mudança.
Dentro do ovo gema e clara se encontravam, se tocavam, se mesclavam, se transformavam. Aquela pequena casca de ovo trazia dentro de si um início, o início de todas as idéias, de todos os desejos, de todos os segredos construídos. Era um início que apenas necessita de um pequeno vazio para engravidar.
A medida que crescia, o pequeno início tomava forma, criava asas e se preparava para viver em outra esfera. A frágil casca que o suportava e continha, preparava ali um ser que fora designado para viver não dentro e sim do lado de fora de si, como se fosse óbvio que tudo aquilo que cresce devesse então passar para outra esfera... ainda assim, a prática óbvia da vida não parece esclarecida suficiente à maioria dos seres viventes.
Quando estas duas palavras:gema e clara, se tornaram carne, poderia-se dizer que existia ali um pássaro. A pequena ave, ainda tão diminuta, não era ainda conscientemente um passarinho. Era ainda preciso esperar que desejasse ser passarinho, que quisesse voar, que quisesse mais do que o conforto e a proteção da pequena casca. Ainda era cedo demais para que passarinho e alma de passarinho estivessem juntas em um só.

Vanessa Emmanuelle de Aquino.