Saturday, October 13, 2007

Sobre o ponto de vista

O que resta a quem nunca foi ao espaco sideral senão imaginar? O que há para se dizer dos lugares e das culturas dos quais jamais participamos ou vimos senão conjecturas e fantasias? O que dirá da França quem nunca esteve lá? E de Nova Iorque? E de Budapeste, da Albânia, do monte Everest, de Bora Bora ou de Marte?

Há quem tente falar de outros lugares, de outros países, de outras vidas, de outras vivências, sem nunca tê-los experimentado, mas o que se tem no final é plena fantasia. Só sabe o gosto dos escargots quem os já provou. Se ruins ou bons, não importa muito mesmo, o que importa é que o sabor ou dessabor só tem quem arriscou a própria língua ali.

Falar de onde se esta é sempre mais fácil, apesar de ser também plena percepção do todo de acordo com a linguagem com a qual você aprendeu a traduzir o mundo. Exemplificando o que quero dizer, de forma grosseira, há quem prove um prato de frutos do mar e só sinta o sabor do sal, outros dirão da manjerona, do alho ou do vinho usado no cozimento... ou seja, mais importante do que ir a New York e ver a Times Square rapidamente, é aprender calmamente sobre as peculiaridades locais e pesquisar um tanto antes de iniciar a sua visita. Para conhecer NY é preciso mastigá-la bem devagar, testando seus gostos, sentindo suas emoções, vivendo seus dias, conhecendo suas tortas de maçã, só depois é que poderemos dizer o que aprendemos.

Portanto, se o seu ponto de vista sobre as tristes mulheres girafas da África, sobre a má educação do cidadão francês, sobre a alienação do americano, sobre o radicalismo do Oriente Médio veio de uma bocada engolida às pressas de um jornal de direita ou de esquerda, é melhor você começar a vomitar, pois o seu próximo comentário a respeito de uma cultura alheia à sua, pode provocar uma grande indigestão.

Falo da experimentação porque é preciso experimentar o ponto de vista do outro lado antes de nos proclamarmos donos da razão suprema. Lembrem-se do que o ratinho disse à Alice: "Gostarias de gatos se fosses eu?"

Para cada ação há um motivo, para cada ponto de vista um contraponto!

Vanessa Aquino

Thursday, September 13, 2007

Sobre o fundo do poço


Diz um provérbio Chinês que "Quem se senta no fundo do poço para contemplar o céu haverá de achá-lo pequeno." Chega uma hora em que é preciso reagir... quem chega ao fundo do poço não tem para onde ir a não ser para o alto.

Deve ser por isso que tantas pessoas obtêm o ápice do sucesso logo depois de uma grande rasteira da vida. Essas pessoas provavelmente notaram que ou ficariam dentro do poço para sempre ou deveriam reagir para tentar sair do poço.

As pessoas que gostam do poço, lá permanecerão dizendo a todos os que jogarem cordas, escadas e etc que estão muito exaustas para segurar a corda ou que estão machucadas demais para tentar subir nas bordas... A boa parte do poço é que lá fica quem quer, quem não está afim de ir a lugar nenhum... e essas pessoas poupam as outras que não querem nem de graça se sentarem no fundo do poço outra vez (afinal, todo mundo alguma vez já esteve lá no fundo). É necessário pensar que quando a situação está das piores as chances de melhorar são bem maiores!

Reaja! Esta é a palavra de ordem! Mas se alguém perguntar sobre aqueles que se afundaram mais e mais no fundo do poço eu até digo que elas, ao contrário daqueles que permanecem no poço, ao menos fizeram a suas escolhas, afinal, até pra cavar o fundo do poço é preciso ter vontade e fazer escolhas.


Vanessa Emmanuelle.

Saturday, September 1, 2007

Sobre a repetição do que chamamos amor

E o que é esse amor que eu sinto senão a repetição de um sonho humano de se completar com outro ser. A minha história não é a única, nem a primeira, nem a última, ela é apenas uma repetição de todos os dias de todos as pessoas que vivem suas vidas além da tela de computador.

Todas as histórias são contadas da mesma forma, a história se repete, as decepções vêem para todos, os grandes encontros, as grandes declarações de amor, as surpresas, as dificuldades só mudam de endereços, de feições, de pares que tantas vezes são Pedros, são Julianas, são Marcos ou Lucianas. Talvez o único amor verdadeiro, genuíno e eterno seja aquele que não vivemos, porque não colocamos por cima desse amor as dificuldades da vida, não o algemamos na cela dos pagamentos de contas, dos desprazeres da vida, da falta de cooperação na arrumação da casa. O amor não é humano, o amor é divino e misturá-lo com as invenções humanas seria no mínimo covardia. Viver um amor é viver no princípio de prazer, se por ele passeamos por muito tempo, ele se desencanta e pálidas se fazem as bocas e cedo adormecem os olhos de quem antes não os podia fechar, tão ardentes eram os desejos de viver o amor. Eternizar o amor é conseguir equilibrar dois mundos sem os misturar, um é divino ou outro é mortal. E no entanto só eternizaram o amor aqueles que por ele morreram, aqueles que foram separados, aqueles que seguiram seus caminhos sem se virar para o amor, aqueles que não o puderam concretizar até o fim, porque o fim é quando a gente percebe que o amor da gente também possui defeitos, defeitos que odiamos e o amor de ontem passa a ser o ódio de hoje e o choro de amanhã. Isso sim, finaliza o amor.


Havia um tempo em que os humanos eram completos, seres unidos pela pelvis que caminhavam pelo mundo em pares, completos e inseparáveis. Debochando dos deuses sobre a grandiosidade de sua completude em frente a todas as outras criaturas e às divindades, acenderam a ira dos deuses que lhes amaldiçoaram e lhes separaram para sempre tendo então cada um que vagar por toda a vida em busca de seu par. Ainda assim, muitas vezes, quando se encontram, estes pares não se reconhecem mais, se estranham e se separam novamente. Esta é a dor que a raça humana tem que carregar para sempre, de geração a geração, a incompletude. E então, a história se repete, o amor que amamos nos abandona no altar, no porto, no aeroporto, no hospital, no cemitério... sempre há um motivo conhecido para se deixar e um lugar. A verdade é que a história se repete e pensando nisso descobri que não há amor original. Nós é que pensamos que o nosso amor é único com sonhos de que ele pode ser vivido até o fim. O nosso amor é só uma cópia de todos os amores já amados, a nossa história é só mais uma história de amor que termina mal, como todas as outras, de um jeito ou de outro... trágica é a vida!


Em conclusão desse devaneio meu, eu vejo que eu não vivo o meu amor, eu vivo o amor dos outros, eu repito a história dos outros, e tantas outras histórias como a minha eu já encontrei no caminho. E aí eu me pergunto, se já era assim, pra que chorar!? Eu já sabia que o fim era fatal e pior, eu já dizia que o fim seria assim. O que eu ainda não descobri é se realmente vale a pena ou se nós apenas vivemos estes amores da mesma forma como temos nossos trabalhos, nossos estudos, nossos afazeres...Diga-me você... e aí? Vale a pena?


Vanessa Emmanuelle.

Sobre a dúvida.

"O único momento em que devemos duvidar de nós mesmos é quando acreditamos que não somos capazes."
Vanessa Emmanuelle.

09/01/2007

Saturday, July 14, 2007

Sobre a falta

Hoje era dia de sol, era dia de colocar a alma no varal urbano e acabar com as marcas de mofo que por algum tempo me acompanharam. E fui ver gente caminhando, como eu, perdida em uma praça de Boston e contente pelo encontro anônimo dos habitantes de uma mesma cidade que geralmente não se vêem, não se cumprimentam, não se sorriem.

O mais interessante é que vendo toda aquela gente conheci a falta que me faz estar entre esses desconhecidos que preenchem o vazio quotidiano da sociabilidade. A falta que me faz caminhar contra o vento, a falta dos meus irmãos, meus pais e a falta de mim. Ver ali os pedaços que fazem parte da minha alma, todos soltos entre artigos de fazenda, temperos e pães numa feira de sexta, provocou em mim uma nostalgia, uma saudade daquilo que nunca deixou de estar em mim, mas que foi então esquecido em um canto, feito um brinquedo largado numa caixa empoeirada qualquer.

Senti falta da minha família, dos meus amigos, das conversas longas sobre filosofia e metafísica. Tenho pensado com freqüência na minha falta... a minha falta de dinheiro, minha falta de trabalho, minha falta de tempo ou minha falta de ocupação. É preciso repensar a falta que sentimos, porque às vezes o que pensamos estar faltando, está sobrando e o que pensamos estar sobrando pode estar faltando e isso pode nos dar mais força (no caso de você encontrar mais objetivos no bolso da calça - como o dinheiro que a gente esquece lá ) ou nos levar para o fundo do poço, quando descobrimos que não enchemos a dispensa com nossos sonhos mais ardentes de iniciar novos projetos, conhecer novos lugares, estudar novos assuntos.

A falta é a caixa que guarda aquela força que não encontramos quando ainda temos algum apoio. Ela é a fonte de onde retiramos a garra, o crescimento, o passo a frente, a energia extra e o auto-conhecimento. A falta é necessária em nossa vida por muitas vezes. É por isso que se te faltar algo uma vez na vida, que não te entristeça, nem te envaideça a miséria ou a pena daqueles que te cercam. A falta é, de alguma forma o início, um "vazio grávido de possibilidades", o momento do novo, a chance das novas promessas e das mudanças que provavelmente há muito, já desejávamos.

Vanessa Emmanuelle.





Fotos: Vanessa Aquino

Thursday, July 12, 2007

Sobre meu pai


Pater Noster, qui es in caelis:
sanctificetur nomen tuum: adveniat regnun tuum:
fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra.
Panem nostrum quotidianum da nobis hodie:
et dimmite nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.
Et ne nos inducas in tentantionem.
Sed libera nos a malo.

Amen.


Deus me lembra meu pai, porque mais do que ser pai, foi ele quem me ensinou um pouco da língua que parece estar mais próxima de Deus (apesar de saber que Deus não fala línguas... Ele é o verbo e todo verbo faz parte Dele, em qualquer língua em que se pronuncie o nosso coração).

Mas foi também o meu pai quem me mostrou a beleza da criação, a ternura das plantações, a virtude da bondade e tantas outras coisas que fazem parte do que de mais lindo herdamos de Deus.

Meu pai se parece com Deus, porque se esconde apesar do seu grande amor, porque age em meu favor sem se pronunciar, sem se importar se será seu o mérito ou se seus filhos simplesmente pensarão que têm sorte.

Eu não tenho sorte, tenho a espada da boa vontade na minha mão direita e o escudo da justiça na minha frente. Sorte eu não tenho, eu tenho um Pai que de tanto amor me deu outro pai, para que eu pudesse ficar mais próxima da essência de Deus e para que nós dois pudéssemos conversar com mais urgência e mais matéria. E não seria também interessante a idéia de que o nome de meu pai seja símbolo daquele que veio para nos ensinar e salvar?

Que Deus me permita essa conexão tão divina por muitos anos e que eu possa ter a alegria de dividir com meus irmãos a fascinação que é, ter um pai que se aproxima tanto de Deus em sua sabedoria, paciência, desprendimento e amor.

Amen.

Vanessa Emmanuelle

Sunday, July 8, 2007

White Mountains

Neste 4 de Julho decidimos fazer algo bem diferente... ao invés de assistir a paradas e fogos de artifícios viajamos para o estado New Hempshire.

Enfim, New Hempshire, White Mountains, Franconia - a nossa cidade de destino.

Muito blah, blah, blah no carro desde as 6:00 da manhã e um café da manhã saudável, com direito a bacon e ovos fritos.

Ok, mas, o que há pra se fazer em Franconia além de tomar café?

Muita adrenalina rola por lá, basta escolher, mountain bike, passeios a cavalo, caçadas, caminhadas em trilhas, escaladas, passeios em teleféricos e até esqui... no inverno!

Marcamos nosso passeio a cavalo para o final do dia, já que havia ocorrido um acidente e algumas pessoas estavam com braços e pernas quebrados lá! Trágico? Talvez! Quem vai saber são os médicos mais tarde.

Enfim, pé na estrada, entramos em outro ponto da rodovia e começamos a escalar um muro sem mais nem porquê, afinal, escaladas em paredes sempre parecem não ter um objetivo claro, mas que é bom isso lá é!

Se quiser ver mais fotos sobre esse passeio basta visitar o outro Pecatoribus (http://www.pecatoribus.spaces.live.com/) lá deve ter foto até da Cuca!

Bem, alugamos umas bicicletinhas daquelas de 21 marchas e suspensão dupla e... 'bora pro alto da montanha. Éramos 9 e pedalamos 22 kilometros parando pra tirar fotos, meditar, ver pequenas quedas d'água, arrumar corrente de bicicleta e procurar o caminho certo a seguir, afinal, não é sempre que se é autorizado a pedalar em rodovias aqui e isso fazia parte do nosso trajeto.

Muito bem, lanchinho no Mac Donalds (sim, vc encontra isso aqui até no meio da montanha!) e corrida até os cavalos, que fecharam o nosso dia feliz com chave de prata, já que não pudemos correr nos cavalos. Tudo bem, nada que uma visita ao Brasil não possa resolver mais tarde.

Enfim, um dia feliz entre os amigos largados em Mass.

Vanessa Emmanuelle

Tuesday, July 3, 2007

If You Forget Me

I want you to know
one thing.

You know how this is:
if I look
at the crystal moon, at the red branch
of the slow autumn at my window,
if I touch
near the fire
the impalpable ash
or the wrinkled body of the log,
everything carries me to you,
as if everything that exists,
aromas, light, metals,
were little boats
that sail
toward those isles of yours that wait for me.


Well, now,
if little by little you stop loving me
I shall stop loving you little by little.

If suddenly
you forget me
do not look for me,
for I shall already have forgotten you.


If you think it long and mad,
the wind of banners
that passes through my life,
and you decide
to leave me at the shore
of the heart where I have roots,
remember
that on that day,
at that hour,
I shall lift my arms
and my roots will set off
to seek another land.

But if each day,
each hour,
you feel that you are destined for me
with implacable sweetness,
if each day a flower
climbs up to your lips to seek me,
ah my love, ah my own,
in me all that fire is repeated,
in me nothing is extinguished or forgotten,
my love feeds on your love, beloved,
and as long as you live it will be in your arms
without leaving mine.


Pablo Neruda

Saturday, June 30, 2007

Sobre o Cheers

Havendo eu decidido cortar a palavra "procrastination", ou procrastinação da minha vida, resolvi fazer algo que há muito eu desejava. Ir ao centro de Boston só para tomar uma cerveja no Cheers.
O Cheers é um bar famoso daqui por causa de um velho seriado que passa na TV. Lá bebe-se boa cerveja e assiste-se aos jogos de baseball do Red Sox, time da casa de Boston.
Pois então, decidi e fui fazer o que eu queria há tempos, assim como a festa de Providence (já abordada anteriormente).
Iniciei meu passeio pegando o metrô de Boston. Uma sensação de vazio me veio quando percebi que ali teria sido um lugar preservado da minha solidão já que guardava as lembranças de idas e vindas acompanhada por alguém que checaria se o meu casaco estava bem fechado ou se eu estaria confortável o suficiente para o rápido passeio que faríamos. Confesso que senti as pernas tremerem e quase dizerem-se impossibilitadas de continuarem sozinhas; um mal estar, uma sensação de que eu iria a qualquer momento tropeçar ou de que o meu estômago iria regurgitar o que estava por dentro, como se a dor e a incompreensão pudessem ser expulsas assim, com uma reclamação estomacal.
Não dei bola, continuei caminhando para não deixar o combinado sair da ordem. Enfrentei o mal estar do metro e recebi uma recompensa... a superação. Passei feito um caminhão sobre a minha dor e ela morreu ou ao menos está em coma no hospital.
Bem, continuando a viagem, chegando ao centro de Boston passei entre as ruas de North End, um "bairro" italiano que na ocasião estava cheio de marinheiros que felizes provocavam as meninas que passavam. As ruas de North End são pitorescas e os bares cheios de gente bonita e feliz.
Um sushi no Quincy Market (equivalente ao Mercado Central) foi necessário, depois de um tempo assistindo aos shows de rua que apresentavam por lá. Foi quando me dei conta de que eu estava num programa pra turistas... e não seria eu uma turista? Há tanto tempo aqui e não havia ido tomar uma cerveja no Cheers ou assistir a vida noturna de Boston.

Por que que a gente é assim?

A cerveja no Cheers foi muito boa, acompanhada de risadas, jogo de baseball - GO SOX!!! - e explicações sobre as regras do mesmo e... piadas, claro!

Bem, o retorno ao metro ainda me deu uns calafrios mas, estando eu in good company, me esqueci e acertei o passo do meu coração.

Jamais deixe seus amigos para trás... no final, eles são sempre a boa coisa que te resta.

Vanessa Aquino


Thursday, June 28, 2007

Sobre Veneza



Há uma festa em Providence, cidade do estado de Rhode Island, nos Estados Unidos que muito me encanta. Eu nunca havia visto uma cidade inteira se vestir com uma fantasia tão doce e concentrada como esta.


Deixando seu carro para trás num morro que mais lembra Ouro Preto, uma música envolve seu espírito na fantasia da cidade de se tornar Veneza. Mais alguns passos e você já está lá, em algum século passado, caminhando ao lado do rio iluminado pelas tochas e velas que mais romantizam as gôndolas que vão e vêm com seus enamorados e fantasmas distribuindo cravos aos passantes.


O sentimento é de que os amantes de Verona fugiram de seus algozes e foram ali passear na "nova Veneza" e Romeu e Julieta poderiam ser você e o seu amor, poderiam ser eu e uma animada companhia, poderiam ser todos os rostos que vi passar.


A festa é linda e nos transporta através do tempo, mas o que mais me espantou foi descobrir a quanto tempo eu não via gente. Eu fui tomada de um susto tal que eu não pude me conter em encarar as pessoas e observar suas feições e expressões como se eu nunca tivesse imaginado que existisse vida além da porta de vidro da minha sacada.


Desperta, vesti-me de um sorriso genuíno e dancei entre a gente desconhecida como se eu não fosse só. Colombina que sou, me esqueci do Pierrot e também do Arlequim... afinal, no fundo, no fundo, são apenas fantasias que acabaram, como a festa de Providence que se despiu com a chegada do sol.

Ah! Que pena este sol... minha gôndola é agora um carro, eu já nem sou Colombina e Veneza está longe daqui.


Vanessa Aquino.

Thursday, June 21, 2007

Do Adeus

Porque tu me deixastes
Á mingua do teu carinho
E contigo levaste a luz deste meu olhar
Desespero meus passos
Em busca de lucidez

Porque todo o esquecimento
Não pode sequer apagar
Uma ponta das boas lembranças
Quebro eu mesma as poucas vigas
Que deixaste de pé quando fostes

Porque notícia alguma encontro
Das promessas que me fizeste
Quando amigo te fazias
Tomo eu este veneno
Que é o desaparecimento

Para que enfim possamos morrer
Avesso de Shakespeare que somos
Envenenados mutuamente
Apunhalados pela covardia
Enganados pelo desencontro.


Luíza.

06/21/07 - 4:00 AM

Friday, June 8, 2007

Sobre a Solidão

Em tempos de grandes avanços tecnológicos que nos conectam com todos os outros homens, meus irmãos, através de toda sorte de aparelhos, eu vejo que somente a solidão me acompanha. De nada adianta conectar-se com o outro quando, há tempos, não nos conectamos mais a nós mesmos.
A conexão com as nossas idéias, nossas neuras, nossos desejos mais tímidos, nossos temores, nossos segredos, nosso tempo é o que falta para sermos finalmente conectados, não ao que os outros são, mas ao que verdadeiramente somos. Não nos amedronte o medo de sermos nós, de sermos sós e sermos essa louca mistura que dá graça à vida. E se não anseias retirar as amarras-fibra-óptica, as cadeias fone, os grilhões eletrônicos, as algemas virtuais que a ti negam a real beleza que anda lá fora, nas ruas, nos abraços e no sorriso é que amputado fostes das suas melhores possibilidades de prazer. E é assim que eu me descubro conectada a milhares de desconectados da vida e é por isso que somente a solidão me acompanha.

Vanessa Emmanuelle.
09 de fevereiro, 2007

Friday, May 25, 2007

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.

The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

W.H. Auden

Tuesday, May 8, 2007

Sobre o dia


Ás vezes o dia começa,
Ás vezes o dia não vem...
Tem dias que o dia não se acaba,
Tem dias em que o dia nem acontece...
Tem dias em que um dia é só um dia.
E só.

Vanessa Emmanuelle
May, 08th, 2007.

Tuesday, April 3, 2007

Sobre o amor que sinto


O AMOR QUE SINTO



O meu coração se contorce
e torce as veias da alma
quando sem ti eu me encontro
sobressaltada madrugada

Sem ti nem a chama do sol
nem mesmo a luz das estrelas,
fazem brilhar as cores que um dia
alegraram a primavera.


Não que eu não mereça essa dor,
mas esta dor, coração, não mereces.
Se outrora eu era a Saudade
hoje me chamo Amor,


E se todo amor só é grande,
se a tristeza dele se apossa,
este amor por ti é sem fim,
e eu queria fazê-lo menor...


Pra que enfim pudesse viver
um amor feliz contigo,
onde a saudade não vive
e a nossa poesia é sem fim.




Vanessa Aquino
03 de Abril, 2007

O Beijo - Rodin.

Friday, March 23, 2007

Everyday



















Everyday I want a new desire.
And I run and fight for this desire everyday.
Everyday I make a dream come true and I sleep and dream new dreams.
Everyday I hear these albatrosses whispering life's secrets.
A secret is something that is in front of us and we think we don't see.
Everyday I sing the same song that my parents used to sing when we met the first time in this world.
Everyday the sun tells me a little bit more than the silly words we use at the elevator.
Everyday is a new day.
Everyday every day...

Vanessa Aquino

Tuesday, March 13, 2007

Sobre a amizade


A amizade é coisa de gente cuja alma ultrapassa os limites da matéria. Até mesmo Aristóteles já sabia de tal transcendência quando disse: "A amizade é haver uma alma em dois corpos."


Um amigo pode ser encontrado em quase qualquer esquina, mas em estado bruto a ser lapidado pelas diferenças e abrilhantado pela sintonia.

Um amigo novo nos espera a cada esquina do tempo e pode ter se criado junto ou ter a leve impressão de que cresceu contigo. Ele pode ser um irmão, um primo, um pai, um amor, alguém que cruzou a nossa estrada de repente, mas nunca um qualquer, porque amigos estão em sintonia conosco desde que nos entendemos por gente. É como se as estrelas e o ar que há na Terra ligasse as pessoas que são parte de uma mesma matéria ou força. Quantas vezes nos surpreendemos ao descobrir que aquele amigo também sonhava nossos sonhos quando ainda não havíamos nos encontrado?

Assim também pensava Goethe quando falava da amizade e ele também descobriu que para que o mundo valha a pena é necessário ter amizades:


"Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado." (Goethe)


Essa é a grande graça das amizades verdadeiras. Nos fazemos completos quando nos encontramos. Não há depressão que supere a presença de um amigo e por isso é preciso cultivar e cuidar, como quem planta um girassol, desta prenda iluminada que é a amizade.
Nós também precisamos nos lembrar que um amigo não pode ser deixado em qualquer esquina, porque somos capazes apenas de criar amizades, mas não de destruí-las. Uma amizade, quando cultivada na verdade do nosso ser não termina nunca, estamos atados para sempre sem poder nunca retornar.


"Diz-me, diz-me: isso é uma amizade ou uma algema?"
(Josemaría Escrivá)

A amizade não morre com a matéria do nosso corpo, ela vive para sempre no berço das estrelas de onde viemos espalhada em diversos "eus" que retornam aos poucos para a eternidade.











"Se morreres antes de mim, pergunta se podes levar um amigo."
(Stone Temple Pilots)
Vanessa Aquino.

Friday, February 16, 2007

Sobre Deus


Eu costumo acordar sempre às 7 da manhã, não por causa do relógio, mas por causa da beleza.
Quando vejo os primeiros raios de sol através da minha janela me sinto como a recém casada que recebe o café da manha na cama. A diferença é que com o tempo o marido se cansa e a esposa acha a ação pouco criativa. A beleza do amanhecer não tem disso, ela se renova todos os dias e entusiasma até mesmo o mais antigo dos homens.
Entusiasmo, do grego, en theos significa estar possuído por Deus. E deve ser exatamente por isso que o amanhecer se renova dentro de nós apesar da ação ser a mesma. Deus nos encanta a cada dia com uma de suas várias faces e nós nunca nos cansamos de ver o sol nascer, pois há sempre um novo Deus a nos acordar. Basta olhar para nós mesmos, todos tão diferentes em feições e comportamentos e somos ao mesmo tempo semelhantes a Deus.

"Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou." (Gênesis 1:27)

Deve ser também por isso que Chico César e Maria Bethânia invocam Deus de toda forma possível afim de descobrir sua identidade:


Invocação
" Deus dos sem deuses
deus do céu sem Deus
Deus dos ateus
Rogo a ti cem vezes
Responde quem és?
Serás Deus ou Deusa?
Que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua língua, tua face
Deus dos sem deuses."

De nada adianta invocar e esperar que Deus se manifeste com voz estrondosa e raios vindos do céu. Deus tem sua forma divina de nos responder todos os dias, apesar de muitas vezes não querermos ver ou ouvir. Prova de que ignoramos a sua manifestação é se pensarmos em qual foi a última vez que paramos para contemplar as nuvens que bailam no céu.

Se Deus é onipresente é impossível que ele se manifeste apenas dentro das igrejas ou nas pessoas que proferem suas orações todos os dias. Deus está na beleza rotineira que a pressa não nos deixa ver e está também nos ateus e na ausência que sentimos Dele.

Vanessa Emmanuelle.

Fotos: Vanessa Aquino.

Monday, February 12, 2007

Dia de festa!

Snowtubbing é uma daquelas atividades que nos fazem ser crianças de novo...
Se você estiver em Boston e quiser umas dicas a respeito deixe um post aí que eu respondo!

Imagens: Vanessa Aquino/Pedro Gattoni
Edição: Vanessa Aquino


Through my window

Everyday I have a warm and yellow sun to wake me up and a peculiar blue on my morning sky that cheers me up and it makes my day.

Everynigth I have an orange moon infatuated by this charming city that fascinates anyone because of its lights.
I can see birds singing on the porch and crossing the sky. I see the snow drifting over the city...






"I feel light
when I see this charming city
hidden in a sunshine
that slowly shows the colors,
colors that warm up my heart.
What sky is so blue?
What river is so silent?
Oh Boston, you make me blue..."

Vanessa Emmanuelle
November, 9th, 2006.



*Pictures 1 and 2 by Pedro Gattoni. Picture 3 (left) by Vanessa Aquino.

Vanessa Aquino

Saturday, February 10, 2007

Iced City



Às vezes eu tento explicar como é lindo ver a cidade petrificada, mas é impossível compreender a beleza de tudo isso sem antes assistir a chuva cair junto com o gelo, num misto de neve e raspa de gelo (daqueles que a gente encontra no congelador) e dormir uma noite inteirinha esperando para acordar bem cedo no dia seguinte para se deparar com uma das mais belas cenas do mundo.


O sol da manhã atravessa as gotas sólidas de dor que pendem das árvores e cintila em todos os cantos acendendo em pleno dia a cidade que dormia. É lindo! Viva a natureza que sempre supera o homem pela simplicidade e principalmente, pela doçura!



Vanessa Emmanuelle.

Sobre as horas


É chegada a hora de desfrutar de tudo o que está disponível... viver é enfim, o ato que mais amo, mas por algum tempo eu estive congelada em uma espécie de bolha que a mim envolvia qual um útero que nos prepara para uma vida longa e expressiva.
Eu me encapsulei, me escondi de mim, me fiz um casulo e hibernei após 25 anos em forma larval, rastejando por entre as folhas de um jardim tropical. Vida boa! Vida da melhor qualidade essa, de viver para digerir o mundo e descobri-lo no frescor das paixões, quando ainda somos meros aprendizes da vida e a vivemos simplesmente por prazer.
Não, eu não perdi o prazer pela vida, eu apenas permaneci inerte para me preparar para o grande vôo... é neste inverno atípico do hemisfério norte, no momento mais impróprio e sutil que me torno asas e cores, colorindo o inverno estéril com o que há de maior... Vida.



Vanessa Emmanuelle